Quero envelhecer junto com este blog

Eu tenho pensado muito sobre o que eu quero que este blog seja, mas não no sentido de calendário editorial, categorias, números, visitas, SEO e todas essas coisas que a gente acaba pensando quando começa a levar um site mais a sério. É mais uma coisa pessoal mesmo, uma vontade que eu tenho de construir aqui um lugar que envelheça comigo. Acho que essa é uma das coisas que mais me encantam na ideia de ter um blog, porque eu já tive tantos blogs, tantos sites, tantas versões de mim na internet e quando eu olho pra trás é muito engraçado pensar que em algum momento eu realmente achei que precisava encontrar uma identidade definitiva, escolher exatamente sobre o que eu falaria, quem eu seria na internet e ficar ali pra sempre. Só que eu não fiquei, né? Eu mudei. E ainda bem.

Eu quero que esse blog possa mudar comigo também. Quero poder olhar pra ele daqui a cinco, dez, quinze anos e reconhecer a pessoa que escreveu aqui, mesmo que eu já pense completamente diferente sobre algumas coisas. Quero poder falar sobre o que eu gosto hoje, sobre as coisas que estou descobrindo, sobre livros, séries, música, internet, nostalgia, trabalho, projetos, coisas que encontro pelo caminho, ideias que ficam na minha cabeça por dias, pequenas descobertas e também sobre essa coisa meio estranha que é ir ficando adulta e perceber que a gente continua mudando mesmo depois daquela idade em que achava que já deveria estar com tudo resolvido.

Eu não quero construir um blog que precise permanecer igual pra continuar sendo ele mesmo. Na verdade, acho que eu quero exatamente o contrário. Quero que ele tenha fases. Quero que tenha textos que daqui a alguns anos eu leia e pense “meu Deus, eu realmente pensava assim” e quero que eles continuem aqui. Não quero apagar tudo só porque uma versão mais nova de mim já não se identifica tanto com aquilo. Quero deixar as versões antigas existirem também, porque elas fazem parte da história. E talvez seja por isso que eu goste tanto de blogs, essa possibilidade de guardar não só o que aconteceu, mas também o que a gente estava pensando enquanto as coisas aconteciam.

E tem uma outra coisa que eu queria muito pra esse espaço: eu queria que as pessoas também pudessem envelhecer junto comigo.

Eu não digo isso pensando em números, seguidores ou em criar uma comunidade gigantesca. É uma coisa muito mais simples. Eu gosto da ideia de alguém chegar aqui hoje e talvez daqui a alguns anos voltar e ainda encontrar alguma coisa que faça sentido. Talvez a pessoa que está lendo agora esteja começando uma faculdade, talvez esteja procurando o primeiro emprego, talvez esteja apaixonada, talvez esteja perdida, talvez esteja começando um projeto que ainda nem sabe onde vai dar. E daqui a cinco anos essa mesma pessoa pode estar morando em outra cidade, trabalhando com outra coisa, casada ou solteira, com filhos ou sem filhos, com uma banda nova favorita, uma nova obsessão, uma nova versão de si mesma. E eu acho bonito imaginar que ela possa voltar aqui e encontrar esse lugar ainda existindo.

Porque a internet hoje é muito boa em mostrar o agora. O que está acontecendo agora, o que está na moda agora, o que você precisa comprar agora, o que você precisa assistir agora, o que você deveria estar fazendo agora pra melhorar a sua vida. E eu sinto falta de lugares que simplesmente estejam lá. Lugares onde você possa entrar numa terça-feira qualquer, encontrar um texto publicado há três anos e pensar “nossa, eu também já senti isso”. Acho que é esse tipo de lugar que eu quero construir aqui.

Talvez o blog seja um pouco isso pra mim, uma casa na internet. Um lugar pra onde eu possa voltar. Uma coisa que vai ficando cheia com o tempo, com textos, referências, histórias, fases, mudanças de layout, novas obsessões, coisas que eu aprendi, coisas que eu desaprendi, opiniões que mudaram e outras que permaneceram. Eu não quero que ele seja perfeito e nem quero que ele pareça sempre novo. Eu quero que ele tenha marcas do tempo mesmo. Como uma casa em que você consegue perceber que alguém viveu ali por muitos anos, sabe? Tem uma coisa em cima da mesa que não deveria estar ali, um móvel que já não combina muito com o resto mas tem história, uma estante que foi ficando cheia aos poucos, fotografias de épocas diferentes e coisas que você nem lembra mais porque decidiu guardar mas continua guardando mesmo assim.

É mais ou menos isso que eu quero.

Eu quero poder crescer aqui.

Quero poder mudar de opinião sem precisar fingir que nunca pensei diferente. Quero poder começar assuntos novos, abandonar outros por um tempo e depois voltar pra eles. Quero que o blog acompanhe as minhas fases sem que eu precise transformar cada fase em uma nova identidade. E acho que isso tem muito a ver com o que eu sinto hoje sobre a internet também. Durante muito tempo eu achei que precisava descobrir qual era o meu lugar nela, como se existisse uma resposta certa. Hoje eu acho que talvez o meu lugar seja justamente poder continuar construindo, continuar experimentando e continuar deixando rastros pelo caminho.

E se daqui a alguns anos eu ainda estiver escrevendo aqui, espero que eu consiga olhar pra tudo isso e perceber que eu não construí só um blog. Eu construí um pedaço da minha passagem pelo tempo. Um lugar onde algumas versões minhas ficaram guardadas e onde outras ainda vão aparecer.

E talvez algumas pessoas tenham passado por aqui durante esse caminho também.

Talvez tenham mudado junto comigo, talvez tenham ido embora e voltado depois, talvez um texto meu tenha feito sentido em algum momento específico da vida delas e isso já seja suficiente. Eu gosto dessa ideia.

Ter um lugar na internet que não peça pra gente voltar a ser quem era.

Um lugar que simplesmente aceite que a gente mudou.

Eu quero envelhecer junto com este blog.

E, se der sorte, quero que ele seja um lugar onde outras pessoas também possam envelhecer um pouquinho comigo.

KT Tunstall – Suddenly I See
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