Por muito tempo eu achei que existia alguma coisa errada comigo, porque enquanto praticamente todo mundo ao meu redor parecia seguir um mesmo caminho, casar cedo, construir uma família, viver aquela vida mais tradicional, eu simplesmente não conseguia me encaixar completamente nisso, não porque eu me achasse melhor do que ninguém ou porque eu desprezasse esse tipo de vida, mas porque, no fundo, alguma coisa dentro de mim sempre parecia resistir, mesmo quando a minha mente tentava acompanhar o fluxo das outras pessoas. Hoje eu consigo entender que muitas vezes a gente tenta desejar coisas apenas para se sentir pertencendo a um lugar, a um grupo, a uma realidade, e não necessariamente porque aquilo realmente faz sentido para a nossa alma.
Eu vejo isso principalmente quando penso na minha própria história, na forma como fui criada, na ausência masculina dentro da minha vida, na forma silenciosa como certos assuntos nunca chegaram até mim, e durante muito tempo eu achei que isso tinha deixado uma falta, mas hoje, olhando com mais maturidade, eu percebo que talvez isso também tenha preservado partes muito importantes de quem eu sou. Eu cresci muito conectada comigo mesma, muito voltada para o meu interior, para a criatividade, para a imaginação, para a minha própria companhia, e talvez por isso eu nunca tenha conseguido viver relacionamentos de forma superficial ou apenas porque “era o momento”. Sempre existiu em mim uma necessidade muito forte de sentido, de profundidade, de conexão verdadeira, como se eu intuitivamente soubesse que algumas experiências simplesmente não eram para mim.
Acho que existe uma diferença muito grande entre estar perdida e estar em preparação…
E é estranho perceber isso, porque durante anos eu me senti atrasada, olhando para pessoas da minha idade casando, tendo filhos, construindo uma vida inteira enquanto eu parecia estar parada no mesmo lugar, mas hoje eu entendo que externamente parada não significa internamente estagnada. Acho que existe uma diferença muito grande entre estar perdida e estar em preparação, e por muito tempo eu confundi as duas coisas. Hoje eu sinto que a vida inteira esteve me preparando para alguma coisa maior, não necessariamente algo grandioso aos olhos do mundo, mas algo muito alinhado comigo mesma, com quem eu realmente sou, com aquilo que faz sentido para mim de verdade.
Eu acredito muito nessa força maior que conduz a vida, não sei exatamente qual nome dar para isso, Deus, universo, destino, energia, sinceramente acho que o ser humano tenta explicar o invisível usando várias linguagens diferentes, mas eu sinto profundamente que existe algo além do nosso controle organizando caminhos, aproximando pessoas, fechando portas, atrasando situações e acelerando outras. Porque eu olho para a minha vida e percebo que tudo aquilo que realmente fluiu aconteceu quase sem esforço exagerado, enquanto aquilo que eu tentei forçar simplesmente nunca permaneceu. E isso vale para relacionamentos, para lugares, para planos e até para sonhos.
Hoje, por exemplo, eu sinto claramente que já não pertenço mais à cidade onde moro, não porque eu odeie daqui ou porque exista algo de errado com esse lugar, mas porque dentro de mim parece que uma parte já foi embora faz tempo. É uma sensação difícil de explicar, como se minha consciência estivesse alguns passos à frente da minha realidade física, como se eu já estivesse emocionalmente conectada com uma vida que ainda não chegou materialmente. E talvez seja por isso que eu aprendi tanto sobre timing, porque eu percebi que existem coisas que não dependem apenas do nosso querer. Claro que precisamos agir, trabalhar, tentar, nos movimentar, mas também existem momentos em que a vida simplesmente ainda não abriu a porta. E não importa o quanto a gente tente empurrar.
Ao mesmo tempo, eu também aprendi que esperar não significa desistir. Existe uma espera muito diferente da passividade, é aquela espera em que você continua construindo, continua criando, continua se tornando quem nasceu para ser, mesmo sem enxergar ainda o resultado final. E talvez seja exatamente esse o ponto em que me encontro hoje. Eu já não sinto mais aquela urgência desesperada de provar alguma coisa para o mundo, de casar porque “está na idade”, de viver um relacionamento apenas para preencher um espaço ou seguir um roteiro social. Hoje eu quero uma vida que faça sentido para mim inteira, quero um amor que some à minha existência, não que substitua quem eu sou, quero continuar sendo uma mulher criativa, intuitiva, conectada comigo mesma e com aquilo que eu sinto que vim construir aqui.

Talvez a vida realmente saiba coisas que a gente ainda não consegue entender no momento em que está vivendo, talvez alguns atrasos sejam proteções, talvez algumas portas fechadas estejam apenas impedindo que a gente entre em lugares que não combinam mais com quem estamos nos tornando. E sinceramente, depois de tudo que vivi até aqui, eu acho que comecei a confiar nisso.
