E se O Conto da Aia fosse amanhã?

Oee, vou começar a introduzir meus “surtos mentais aleatórios” por aqui ahahaha, sei que não é um assunto com “temática de blog” mas precisava incorporar o arquivo que esta no final do artigo porque é um auxiliar para quem veio do meu Podcast Inventário do Meu Mundo.

Às vezes acontece de eu escutar alguma coisa, ver alguma coisa ou simplesmente estar consumindo algum conteúdo e começar a pensar: e se isso acontecesse de verdade, como eu poderia me preparar ou me portar diante dessa situação? É quase um exercício de imaginação, mas não daquele tipo que a gente faz só por curiosidade, é mais uma tentativa de entender o mundo em que vivemos, as coisas que consideramos garantidas e o que faríamos se, de repente, a nossa realidade mudasse completamente. Foi exatamente isso que aconteceu enquanto eu assistia a O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), uma série que quanto mais eu assisto, mais me faz pensar para além da ficção!

Para quem não conhece, a história se passa em Gilead, uma sociedade autoritária construída a partir de uma interpretação extremista da religião, na qual as mulheres perdem direitos, liberdade e autonomia sobre a própria vida. Elas deixam de ter controle sobre o próprio corpo, são impedidas de tomar decisões que antes faziam parte da sua rotina e passam a viver de acordo com as funções que aquela sociedade determina para elas e uma das coisas que mais me chama a atenção é justamente a maneira como essa realidade vai sendo construída. Não é simplesmente acordar um dia e descobrir que tudo mudou, mas perceber que a liberdade pode ser limitada quando as pessoas deixam de questionar, quando determinados discursos começam a parecer normais e quando direitos que deveriam ser básicos passam a ser tratados como privilégios.

Enquanto assistia, comecei a pensar em uma pergunta que pode parecer exagerada à primeira vista, mas que considero válida: e se O Conto da Aia fosse amanhã?

E se, de uma hora para outra, as mulheres brasileiras fossem impedidas de trabalhar – eu fosse impedida, de movimentar o próprio dinheiro, de ter contas bancárias ou de possuir imóveis em seu nome? E se aquilo que hoje faz parte da nossa rotina deixasse de ser permitido?

Como eu me prepararia? O que eu faria para não ficar completamente dependente de outra pessoa? E, principalmente, será que eu estaria preparada para uma mudança tão grande na minha vida? Não estou dizendo que acredito que o Brasil necessariamente vá se transformar em Gilead, nem que uma realidade como a da série esteja prestes a acontecer. A questão é outra. Eu gosto de pensar sobre possibilidades, observar o mundo e tentar entender como as coisas funcionam, inclusive aquelas que parecem distantes da nossa realidade e acho que existe uma diferença entre viver com medo de que algo ruim aconteça e refletir sobre o que podemos fazer para ter mais autonomia caso a vida tome um rumo inesperado. Uma coisa paralisa; a outra pode nos ajudar a construir alternativas.

A história dos direitos das mulheres me fez pensar ainda mais sobre isso. Às vezes, quando falamos de conquistas femininas, parece que estamos falando de coisas que sempre existiram, como se votar, trabalhar, estudar, administrar o próprio dinheiro e decidir sobre a própria vida fossem direitos naturais que nunca estiveram em discussão, mas não foi assim. No Brasil, as mulheres conquistaram o direito ao voto em 1932, por meio do Código Eleitoral, e essa conquista foi incorporada à Constituição de 1934. Inicialmente, porém, o voto feminino não tinha as mesmas condições de obrigatoriedade que o masculino, foi somente com a Constituição de 1946 que o voto se tornou obrigatório para homens e mulheres alfabetizados. Outro marco importante aconteceu em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada. Antes dessa mudança, o Código Civil de 1916 colocava a mulher casada em uma posição de dependência jurídica em relação ao marido, que era considerado o chefe da sociedade conjugal, a legislação exigia autorização marital para determinados atos da vida civil, inclusive para que a mulher casada exercesse uma profissão. O Estatuto da Mulher Casada alterou essa situação e retirou a necessidade de autorização do marido para o exercício profissional, além de modificar outras regras relativas à condição jurídica da mulher.

Quando penso nisso, fico imaginando quantas mulheres precisaram pedir autorização para trabalhar, construir uma carreira ou tomar decisões sobre a própria vida. E não estamos falando de uma sociedade de milhares de anos atrás. Estamos falando da história recente do Brasil, de algo que aconteceu na geração das nossas mães, avós e bisavós, dependendo da idade de cada família. É muito fácil olhar para o passado e pensar que aquelas coisas jamais seriam aceitas hoje, mas, para as mulheres que viveram naquela época, aquelas regras faziam parte da realidade jurídica e social em que estavam inseridas.

É justamente por conhecer um pouco dessa história que não consigo simplesmente descartar a possibilidade de que direitos possam sofrer retrocessos e isso não significa afirmar que toda mudança política levará a uma sociedade como Gilead, nem que o presente seja igual ao passado. Significa reconhecer que as leis, as instituições e as relações sociais são construídas ao longo do tempo e que precisamos acompanhar o que acontece ao nosso redor. A história não se repete necessariamente da mesma maneira, mas conhecê-la nos ajuda a identificar questões que merecem atenção.

E aqui entra uma coisa que considero muito importante: para mim, evitar informação potencialmente prejudicial não significa fechar os olhos para o mundo. Existe uma diferença entre consumir conteúdo alarmista, que só aumenta a ansiedade e nos deixa com a sensação de que tudo está perdido, e acompanhar informações relevantes para compreender o que está acontecendo. Eu não quero viver esperando o pior, mas também não quero estar tão distraída que deixe de perceber mudanças importantes, prefiro buscar fontes confiáveis, entender o que está sendo proposto, acompanhar as leis e procurar saber quais são os meus direitos. Não quero transformar preocupação em paranóia, mas também não quero confundir tranquilidade com desinformação.

Então, o que eu faria para me preparar?

Depois de pensar em tudo isso, comecei a me perguntar: tá, mas se eu realmente acredito que é importante estar atenta, o que eu posso fazer hoje? Não adianta assistir O Conto da Aia, ficar horrorizada com a possibilidade e depois simplesmente fechar a televisão e seguir a vida como se nada tivesse me feito pensar. Eu não quero viver com medo, mas gosto da ideia de estar minimamente preparada. E, para mim, preparação não significa comprar coisas desesperadamente, guardar dinheiro debaixo do colchão ou viver esperando uma catástrofe. Significa construir autonomia enquanto a minha vida ainda está normal.

1. Autonomia financeira

A primeira coisa que eu faria — e que, na verdade, já considero importante independentemente de qualquer cenário político — é cuidar da minha autonomia financeira. Ter uma conta bancária em meu próprio nome, saber exatamente quanto entra e quanto sai, conhecer meus gastos, ter uma reserva financeira e não depender completamente de outra pessoa para sobreviver. Porque quando a gente pensa no que acontece em O Conto da Aia, uma das coisas mais assustadoras é justamente a perda da autonomia econômica. Não é apenas alguém dizer “você não pode trabalhar”. É tirar da pessoa a possibilidade de administrar o próprio dinheiro, de tomar decisões e de construir uma vida independente.

Então eu quero saber quanto custa a minha vida. Quero saber quanto eu precisaria para passar um mês sozinha, quanto precisaria para me manter por alguns meses e o que eu poderia cortar em uma situação de emergência, quero construir uma reserva, mesmo que aos poucos, porque dinheiro também é possibilidade de escolha – não significa que dinheiro resolva tudo, mas ter algum recurso próprio pode fazer diferença quando você precisa tomar uma decisão. E pra mim, isso também significa não depender de uma única fonte de renda, quanto mais eu conseguir desenvolver habilidades, projetos e formas diferentes de trabalhar, maior é a minha capacidade de me adaptar caso alguma coisa mude.

2. Documentação e patrimônio

A segunda coisa seria cuidar muito bem dos meus documentos e do meu patrimônio. E parece uma coisa extremamente burocrática, mas pense: você sabe onde estão todos os seus documentos importantes? Tem cópias deles? Sabe quais bens estão registrados no seu nome? Tem acesso aos seus contratos, investimentos, comprovantes e documentos financeiros?

Eu manteria tudo organizado e teria cópias digitais protegidas dos documentos importantes. Documento de identidade, CPF, carteira de trabalho, diplomas, contratos, documentos bancários, comprovantes de investimentos e qualquer documentação relacionada a um patrimônio que eu tenha. Se eu tivesse um imóvel, por exemplo, gostaria de saber exatamente onde está a documentação, como consultar o registro e quais documentos comprovam a propriedade. Não colocaria um bem no nome de outra pessoa simplesmente por medo ou por achar que seria uma forma de proteção, pelo contrário: procuraria entender juridicamente o que estou fazendo antes de tomar qualquer decisão.

Porque uma coisa que O Conto da Aia mostra muito bem é que patrimônio e autonomia estão diretamente relacionados. Ter alguma coisa no seu nome significa ter uma relação jurídica com aquilo e eu quero conhecer a minha própria situação, em vez de deixar toda essa informação nas mãos de outra pessoa.

3. Capacidade de gerar renda

A terceira coisa seria continuar desenvolvendo a minha capacidade de trabalhar e gerar renda e aqui eu não estou falando apenas de ter um emprego, para mim, é muito mais interessante pensar: quais habilidades eu tenho que poderiam me permitir ganhar dinheiro de diferentes maneiras?

Eu posso trabalhar para uma empresa, prestar um serviço, ensinar, criar um produto, desenvolver um projeto, trabalhar pela internet, aprender uma habilidade nova… Quanto mais possibilidades eu tiver, menos dependente fico de uma única estrutura. Isso também conversa muito com a vida que eu quero construir, eu não quero simplesmente ter um emprego e pronto – quero construir uma vida profissional que me permita ter autonomia, aprender coisas diferentes e criar projetos meus. Então, nesse cenário hipotético, essa seria uma das minhas maiores preparações: continuar construindo capacidade profissional, porque se um dia uma fonte de renda desaparecer, eu quero ter outras habilidades para colocar em movimento.

4. Segurança digital e privacidade

A quarta coisa seria cuidar da minha segurança digital. Hoje praticamente toda a nossa vida está conectada à internet, banco, documentos, trabalho, e-mail, redes sociais, investimentos, contatos, fotos, arquivos… então não adianta pensar em autonomia e deixar todas as senhas espalhadas ou depender de outra pessoa para acessar as próprias contas.

Eu manteria senhas fortes e diferentes, autenticação em dois fatores, e-mails de recuperação atualizados e o controle dos meus próprios dispositivos e também evitaria compartilhar senhas bancárias, códigos de segurança ou informações que possam permitir que outra pessoa assuma minhas contas. Parece pequeno, mas imagina perder acesso ao seu e-mail principal. A partir dele, talvez você perca acesso ao banco, aos investimentos, às redes sociais, aos documentos e a uma série de outras coisas então, para mim, privacidade também é uma forma de autonomia.

5. Rede de apoio

A quinta coisa seria construir e manter uma rede de apoio e essa talvez seja uma das coisas mais importantes porque autonomia não significa fazer tudo sozinha.

Eu gostaria de ter pessoas em quem confio, pessoas com quem eu possa conversar, pedir ajuda e até mesmo ficar temporariamente caso alguma situação de emergência aconteça. Ter amigos, familiares ou outras pessoas de confiança fora de um único círculo de convivência pode fazer muita diferença eu também gostaria de saber onde procurar ajuda profissional e institucional se precisasse: orientação jurídica, assistência social, serviços públicos, organizações de apoio e outros recursos disponíveis.

Porque uma pessoa completamente isolada é muito mais vulnerável, ter uma rede não significa ser dependente dela. Significa saber que, se alguma coisa acontecer, você não está completamente sozinha no mundo.

6. Informação e participação cívica

E a sexta coisa seria justamente essa: informação. Para mim, evitar informação que me faça mal não significa viver desinformada! Eu acho que existe uma diferença enorme entre consumir notícia o dia inteiro, ficar ansiosa com tudo o que acontece no mundo e acompanhar aquilo que realmente pode afetar a nossa vida.

Eu ficaria atenta às mudanças nas leis, às propostas legislativas, aos direitos das mulheres e às decisões das instituições, procuraria informações em fontes confiáveis e tentaria entender o que está efetivamente acontecendo antes de acreditar em qualquer coisa que aparece na internet, porque uma das coisas que mais me assustam nessa discussão é pensar que um direito pode começar a ser questionado e, enquanto todo mundo está discutindo outras coisas, a mudança vai acontecendo aos poucos.

E talvez seja justamente por isso que eu gosto de entender história, quando a gente olha para trás e percebe que determinadas coisas que hoje parecem absurdas já fizeram parte da legislação e da sociedade, fica mais difícil pensar que “isso nunca poderia acontecer”. Não significa achar que tudo vai se repetir, significa simplesmente não tratar a nossa realidade como algo que existe por mágica.

E se, hipoteticamente, o governo anunciasse restrições aos direitos das mulheres?

Aí eu acho que a primeira coisa seria respirar e procurar informação confiável.

Se amanhã aparecesse uma notícia dizendo que mulheres não poderiam mais trabalhar, ter contas bancárias ou possuir determinados bens, eu não sairia imediatamente transferindo patrimônio, sacando todo o meu dinheiro ou tomando decisões desesperadas, primeiro eu procuraria saber: isso é verdade? Qual é o texto da medida? Já está valendo? Quem seria afetado? Existe alguma decisão judicial? Quais são os prazos? Quais são os direitos que continuam protegidos?

Depois disso, eu procuraria orientação jurídica independente para entender exatamente o que aquela mudança significaria para mim, também manteria registros dos meus documentos, patrimônio, contas e investimentos e ficaria muito atenta a qualquer tentativa de golpe ou desinformação. Em uma situação de medo coletivo, provavelmente surgiriam muitas pessoas tentando se aproveitar disso.

E, principalmente, eu procuraria conversar com pessoas de confiança e entender quais alternativas existem, porque acho que existe uma diferença enorme entre estar preparada e estar apavorada. Eu não quero viver imaginando que Gilead vai aparecer amanhã na minha porta, mas também não quero olhar para a história e pensar que direitos são tão garantidos que nunca precisamos prestar atenção neles.

No fim, talvez essa seja a reflexão que O Conto da Aia deixou para mim: não é sobre acreditar que a ficção necessariamente vai acontecer. É sobre perceber o valor daquilo que hoje parece tão cotidiano que a gente nem pensa a respeito.

Poder trabalhar, ter dinheiro, uma conta bancária,uma casa, estudar, escolher onde morar, com quem estar, er acesso à própria documentação, decidir sobre o próprio corpo, poder construir uma carreira e uma vida que tenha a nossa cara. Tudo isso parece muito básico quando a gente tem, mas talvez seja justamente por ser tão básico que eu não quero deixar de prestar atenção.

Então, se eu posso fazer alguma coisa hoje, não é viver com medo do amanhã, é construir uma vida na qual eu tenha mais informação, mais autonomia, mais alternativas e mais capacidade de escolher e talvez esse seja o meu jeito de responder à pergunta que ficou na minha cabeça enquanto eu assistia à série:E se O Conto da Aia fosse amanhã?

Eu gostaria de poder dizer que, pelo menos, eu fiz o possível para não chegar ao amanhã completamente despreparada.

O que eu faria no seu lugar nos próximos 90 dias (sim meu negócio é já por a mão na massa com o que tenho ahhah)

Em vez de tentar se preparar para tudo de uma vez, eu construiria uma base que também melhoraria minha vida mesmo que nada parecido com Gilead acontecesse, por isso deixo um doc. com um plano de ação caso você queira baixar para se estruturar também.

BAIXAR O DOC.

Por fim, uma pergunta que pode nos ajudar a tornar isso mais prático: quando você pensa nesse cenário de O Conto da Aia, qual é a sua preocupação principal?

Bjs.

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