B E L L A Studio Criativo

O dia em que eu entendi que o café superfaturado não era sobre o café

Ontem eu inventei (ai gente pra quê) de viver aquela experiência clássica de “nova mentalidade”, coloquei minha melhor roupa, fui pro shopping e sentei num daqueles lugares que vendem muito mais uma estética de vida do que um café em si, pedi um leite com chocolate na Kopenhagen e fiquei ali observando tudo, o ambiente, as pessoas, aquela sensação silenciosa de sofisticação que esses lugares tentam passar, só que enquanto eu estava ali eu comecei a perceber uma coisa muito estranha, porque

eu não estava me sentindo poderosa, não estava me sentindo rica, não estava me sentindo expandida, eu estava só… tentando performar uma versão de mim que eu achei que precisava existir pra eu finalmente “entrar” numa nova fase da minha vida.

E acho que isso me bateu ainda mais forte porque eu percebi o quanto existe essa ideia hoje em dia de que prosperidade é frequentar lugares caros, tomar café superfaturado sem olhar o preço, consumir coisas caras só porque sim, como se isso automaticamente mudasse sua frequência, sua autoestima ou sua realidade, sendo que às vezes você só está sentado num lugar caro se sentindo deslocado e tentando convencer a si mesmo de que aquilo faz sentido.

E foi aí que tudo começou a ficar meio simbólico demais pra mim, porque eu comecei a agir exatamente do jeito que eu sempre ajo, elogiando demais a atendente, tentando ser agradável, querendo incentivar ela, como se eu tivesse uma obrigação invisível de deixar todo mundo confortável o tempo inteiro, sendo que ela estava literalmente só fazendo o trabalho dela. Depois ainda percebi que o troco veio errado, ficou faltando um real e pouco, o que nem é pelo valor em si, mas pela sensação estranha da situação toda, porque no final das contas eu paguei quase 70 reais numa bebida e ainda saí com aquela energia meio drenada. E pra completar, apareceu a gerente, uma mulher que eu conheço porque sou professora da filha dela, e ali meu momento acabou completamente porque ela começou a falar sem parar, reclamar da vida, desabafar, perguntar da filha, e quando eu vi já estava fazendo o que eu sempre faço também, me justificando, explicando comportamento alheio, acolhendo emocionalmente alguém num momento que era pra ser meu.

Eu não consegui nem tomar o negócio em paz!

Quando eu saí de lá eu fiquei pensando que talvez eu tenha entendido errado durante muito tempo o que é abundância, porque não, eu não quero uma vida baseada em consumo performático, não quero viver tentando parecer uma pessoa rica dentro de ambientes que só existem pra vender status embalado em copo bonito e iluminação aconchegante. Claro que eu quero ter dinheiro, quero conforto, quero liberdade de poder gastar sem ansiedade, mas riqueza pra mim definitivamente não é só entrar em lugares caros e consumir coisas caras sem questionar. Isso é uma parte muito pequena da vida.

Eu acho que no fundo eu quero uma vida leve, quero silêncio mental, quero autonomia, quero conseguir existir sem sentir que preciso agradar, justificar, acolher e sustentar emocionalmente todo mundo ao redor o tempo inteiro. E talvez o mais engraçado seja perceber que esse café superfaturado acabou me ensinando muito mais sobre mim do que sobre dinheiro.

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